Sobre o encanto do desencanto

Deus é uma cobiça que temos dentro de nós. É um modo de querermos tudo, de não nos bastarmos com o que é garantido e já tão abundante. Deus é uma inveja pelo que imaginamos. Como se não fosse suficiente tanto quanto se nos põe diante durante a vida. Queremos mais, queremos sempre mais, até o que não existe nem vai existir. E também inventamos deus porque temos de nos policiar uns aos outros, é verdade. É tão mais fácil gerir os vizinhos se compactuarmos com a hipótese de existir um indivíduo sem corpo que atravessa as casas e escuta tudo quanto dizemos e vê tudo quanto fazemos. É tão mais fácil se esta ideia for vendida a cada pessoa com a agravante de se lhe dizer que, um dia, quando morrer, esse mesmo sinistro ser virá ao seu encontro para o punir ou premiar pelo comportamento que houver tido em todo o tempo que gastou. E a comunidade respira mais de alívio por saber que assim estamos todos policiados da melhor maneira, temos um polícia dentro de nós, um que sendo só nosso também é dos outros e, a cada passo, pode debitar-nos ou acusar-nos e terminar o nosso percurso com facilidade. Eu sei que a humanidade inventa deus porque não acredita nos homens e é fácil entender por quê. Os homens acreditam em deus porque não são capazes de acreditar uns nos outros. E quanto mais assim for, quanto menos acreditarmos uns nos outros, mais solicitamos o policiamento, e se o policiamento divino entra em crise, porque as mentes se libertam e o jugo glutão da igreja já não funciona, é preciso que se solicite do estado esse policiamento. Que medo o de voltarmos ao tempo de uma polícia para costumes e convicções. Que medo se voltamos a temer os vizinhos e os vizinhos nos puderem entregar por ideias contrárias. Que medo se nos entra outro filho da puta no poder, a censurar tudo quanto se diga e a mandar que pensemos como pensa e que façamos como diz que faz. Que medo de tudo se em tudo quanto os homens fazem vai a vontade torpe de ultrapassar o outro, poder mais do que o outro, convencer o outro de que fica bem no andar de baixo e depois subir, subir o mais sozinho possível, porque ganhar acompanhado não satisfaz ninguém.”

Essa fala vem do livro “A Máquina de Fazer Espanhóis, do Valter Hugo Mãe. Quem disse isso foi um senhor de 85 anos que ficou viúvo de uma mulher que amava e admirava muito. Ele é um português que agora vive em um asilo aguentando a vida enquanto espera a morte, e já falou que se um anjo vier buscá-lo para levá-lo ao céu, que cortem suas asas, porque ele quer mesmo é ir para a terra e ficar livre da injustiça que é viver.

Sim, ele é um velho ranzinza. Mas simpatizo com seu jeito. Ainda não terminei o livro, tô quase, mas tem uma sinceridade desencantada que, bem, me encanta.

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